quarta-feira, 3 de março de 2010
Portuglês
A expressão anglófona aí de cima não foi em vão. Implico com o uso exacerbado e sem motivo de palavras e expressões em inglês, em substituição de palavras e expressões em português. Afinal, ainda moramos no Brasil. Pior do que isso, mas igualmente constante, é o uso correto do inglês no mesmo texto em que o português - e não é o da padaria - é assassinado. Para que saber escrever corretamente na língua-mãe se temos uma língua-deusa para nos expressar, né?
E aí, dá-lhe welcome coffee, welcome drink, speech, goal, have fun, expertise, easy going... Tudo escrito como manda a norma culta da língua de Shakespeare e lado a lado a coisas do tipo: sexta feira, as 20h, os DJs tem, champu, como manda a norma colonizada e ignorante da língua de Camões.
Longe de mim querer que usemos sítio em vez de site. Não confunda minha crítica a ufanismo e xenofobia. Por não sermos portugueses, mas brasileiros, o termo "sítio" só é utilizado para aquela casa de campo que alguns afortunados de espírito têm. A própria palavra "site" já é uma apropriação brasileira e, por isso, se justifica. Sim, porque lá nos EUA usa-se website, ou seja, um lugar na web.
Quero deixar claro não ter problema nenhum com os países e populações anglófonas. Pelo contrário, gosto muito da cultura deles: os beats, o rock, a música pop, pop art, Tarantino... Exemplos não faltam. Agora, se utilizar de expressões em inglês para reforçar hierarquias e situações de poder denotam infantilidade, cafonice, ignorância e, o oposto do que se pretende, submissão cultural e intelectual.
Menas, brother, menas!
domingo, 28 de fevereiro de 2010
O salão translúcido
O fio de luz aos poucos mostra um salão de decoração antiga, rebuscada. Lustres enormes e luxuosos pendem do teto, tapetes pesados recobrem partes do piso de madeira. Nunca vi lugar igual. Nem mesmo em museus. O aspecto físico do salão me toma a atenção completamente por bons segundos. Quando consigo me desligar dos adornos, percebo que não sou o único. Na verdade, há várias outras pessoas. Todos, inteiramente desconhecidos por mim. Alguns, talvez já tenha visto de relance.
Uma mulher acena em minha direção. Retribuo por educação.
“Que bom que chegou. Já achávamos que não vinha mais.”
“Vocês me esperavam? Sabiam que eu vinha?”
Ela sorri sutilmente e me entrega um drinque.
“Claro. Aceitou o meu convite, assim como os outros que aqui estão e mais aqueles que acabam de adentrar o portal.”
Olho rapidamente por onde entrei. Pessoas e mais pessoas chegam. Alguns, tão assustados quanto eu; outros, com uma felicidade notável. Mas todos, sem exceção, estão ali para se divertir. Digo mais: pela maneira que recebem os novatos, também têm a intenção de propiciar divertimento.
Questionar o salão me aparece irrelevante. Estou nele, faço parte dele. Nenhuma alma no recinto é externa ao salão. Ele só existe com essas pessoas. Sem elas, tenho certeza, o salão perde sua razão de ser.
“É quase isso!”, falou a mulher que me recebeu.
“Você leu o meu pensamento?”
“Você é que permitiu que eu lesse. Só leio aquilo que você deixa que se leia. Mas não apenas eu leio”, ela aponta para o alto.
O teto que dava sustentação ao lustre fica transparente. Era possível ver além, muito além dele. Dava, até, para ver uma abóbada de vidro que nos cercava. Estávamos sendo observados por uma infinidade de pessoas por meio de uma redoma. Mesmo assim, não me sinto preso; pelo contrário, tenho uma sensação de liberdade.
“Elas também leem o que você pensa, desde que você deixe que leiam.”
A ansiedade toma o meu corpo por instantes. Logo entendo que é uma escolha minha. Que na verdade já foi feita. Talvez eu nunca tenha tido opção, de fato. Aceito que é o que tenho que fazer. Tomo mais um gole do drinque que me foi oferecido. O corpo aquece, a mente viaja e me sinto vivo. Destravo as últimas amarras que impedem que o meu pensamento seja decifrado por qualquer um que cruze com ele. Dentro ou fora desse salão. As minhas ideias sem mim, não existem; e eu sem elas, muito menos. Hoje eu sei. E quero que saibam também.
quarta-feira, 17 de fevereiro de 2010
Autopromoção
quinta-feira, 21 de janeiro de 2010
Monstros: o melhor remédio contra a solidão
Não sou daqueles que vai ao cinema para ver qualquer filme. Gosto de entrar na sala escura, fria, com poltronas confortáveis e uma tela enorme para ter uma experiência que dure além das quase duas horas da sessão. Não estou dizendo que essa é a única maneira que valha a pena, é apenas o que me motiva. Ontem, felizmente, saí da sala de projeção com as minhas expectativas muito mais do que atingidas, embora tivesse pouca informação sobre “Onde vivem os monstros” (“Where the wild things are”). O meu principal motivo para ver este filme estava nos créditos de direção: Spike Jonze, responsável por “Quero ser John Malkovich” e “Adaptação”.
E Jonze, mais uma vez, não decepcionou. Fez uma adaptação do livro infanto-juvenil "Os Sete Monstrinhos", de Maurice Sendak, delicada e sensível. Mas não espere um filme para crianças. Não é. É um filme sobre solidão. Uma solidão existente no mundo/cabeça do menino Max, um garoto que tenta aplacar este sentimento por meio de sua criatividade. É ela que preenche os momentos em que sua mãe e/ou sua irmã não lhe dão a atenção desejada, além de outros artifícios típicos de um menino de sua idade, como pitadas de agressividade e hiper-atividade. Nada que extrapole.
Enciumado, Max tem um desses rompantes de agressão e morde a mãe. De castigo, sua imaginação o leva para um mundo habitado por monstros gigantes. E onde Max é rei. Neste mundo, dormir embolado (afeto) e fazer o quer quiser são as regras. Leis estas que devem manter a infelicidade e a solidão longes.
O mundo perfeito não existe, e logo Max descobre. Mesmo com a melhor das intenções, Max não consegue administrar os diferentes anseios e vontades dos habitantes/monstros. A mesma boa intenção que certamente sua mãe tem em relação a ele. E o menino percebe.
“Onde vivem os monstros” reúne em um filme só tristeza, felicidade, raiva, beleza... Talvez seja isso que nos faça ter um grau de identificação com o menino. Mas pode ser também a dificuldade em lidar com as frustrações e com a impossibilidade de fazermos tudo aquilo que gostamos em um mundo habitado por personalidades distintas, a tal sociedade.
quarta-feira, 6 de janeiro de 2010
Autopromoção
segunda-feira, 4 de janeiro de 2010
Dança da chuva
Um dos primeiro atos do prefeito do Rio de Janeiro, Eduardo Paes, foi acabar com o contrato que seu antecessor, Cesar Maia, tinha com uma empresa/entidade indígena cujo objetivo era afastar as chuvas da cidade em ocasiões especiais, como o réveillon. O fim do contrato não durou muito e logo EP refez o acordo com o(a) Cacique Cobra Coral. Afinal, ele não queria ser conhecido como o prefeito que deixou a cidade sob águas justamente na festa de Ano Novo. Imagina a queima de fogos na Praia de Copacabana, que abriga dois milhões de pessoas, entre turistas e moradores da cidade, ser um fiasco por causa de materialismos bobos?
Mais uma vez, os serviços do(a) cacique Cobra Coral se mostraram eficazes, e a passagem de ano transcorreu sem chuva e com muita alegria. Não podemos, no entanto, deixar de notar que se Copacabana passou a seco, outras regiões do estado sofreram com um terrível dilúvio. Foi o caso da Baixada Fluminense e de Angra dos Reis, como temos acompanhado no noticiário.
Diante deste quadro, temos que questionar algumas atitudes dos nossos governantes: se o(a) cacique Cobra Coral tem um trabalho tão bem feito e importante, vide sua perpetuação em governos diferentes, por que o governador Sérgio Cabral também não fez um contrato com a entidade indígena? Vão precisar morrer mais quantas pessoas para que isso seja feito?
No entanto, não devemos ser ingênuos quanto à atuação do(a) Cacique Cobra Coral. Será que em vez de exterminar com as chuvas na capital, ele precisava, também, desviar a chuva para outras áreas – e de forma tão violenta? Será que as tempestades na Baixada e em Angra não fazem parte da estratégia de assinatura de novos contratos, à semelhança do modus operandi de grupos de segurança, que muitas vezes praticam atos violentos para justificar sua contratação?
O fato é que algo precisa ser feito. Não é possível pessoas continuarem morrendo por causa das chuvas de verão. O problema é que tenho a sensação de que nem o(a) Cacique Cobra Coral será contratado para outros municípios nem qualquer providência será tomada. Não é pessimismo, mas é que a Baixada fica tão longe de Copacabana...