A palavra é "periândrico"...
Ultimamente tenho me interessado bastante por botânica. Precisamente, flores. Gosto delas, embora não tenha o menor conhecimento. Mas estou correndo atrás. Pelo menos, para não parecer um completo ignorante e, principalmente, um desinteressado. Se tem uma coisa chata, é alguém que diz gostar de algo mas não procura saber mais sobre o assunto. E foi assim, querendo me desasnar, lendo uma revista especializada em flores, que apareceu, bem na minha frente, estalando na minha cara, pulando sobre os meus olhos, um periândrico!
O dicionário, por favor. Estava lá, em periândrico: Que cerca os estames das flores. Pronto, saciada minha curiosidade. Ou quase. Estames. O que são estames? O dicionário tem dessas coisas. Você procura uma palavra e, tão logo lê sua acepção, folheia novamente em busca de outros verbetes presentes na definição que acabara de ver. Retomo minha concentração antes que minhas digressões façam-me esquecer o que estava procurando.
Estame: Fio de tecelagem; órgão masculino das plantas fanerogâmicas. A segunda é o que precisava saber. Tem gente que tem uma técnica para aprender mais palavras: sempre que procura uma no dicionário, ela olha, também, os verbetes de cima e de baixo. Assim, em vez de uma, ela aumenta o vocabulário em três palavras.
Agora que já sei que os periândricos são aquilo que cercam os estames das flores e que estames significam o órgão masculino das plantas fanerogâmicas, só me resta recorrer novamente ao pai-dos-burros. Afinal, não me lembro de ter sido apresentado a nenhuma fanerogâmica em minha vida. Ou será que ando esquecido? Não creio.
Em fanerogâmica, não encontrei nada. Mas, abaixo de fandanguista (adj. Fandangueiro) e acima de fanfarra (Conjunto de instrumentos; banda de música), descobri fanerógamo, que significa "Planta que tem os órgãos sexuais aparentes; -s: grande divisão do ramo vegetal que compreende as plantas que dão flor." OK, devo confessar que não tive muita curiosidade pela palavra "fandangueiro". Vai ficar para uma próxima pesquisa, já que não tinha, pelo menos no momento de minha busca, a ver com o tema de leitura: as flores.
É impressionante como um simples parágrafo de um assunto minimamente desconhecido pode nos levar a uma abertura de horizontes e a um enriquecimento vocabular admirável. Em apenas algumas linhas, soube o que era periândrico, estame, fanerógamo... Bem, na hora da minha leitura, eu sabia; agora, depois de umas dezenas de minutos, minha memória falha. Todas aquelas palavras esquisitas já caíram no esquecimento (olvido; omissão; descuido; abandono).
terça-feira, 27 de julho de 2010
quinta-feira, 22 de julho de 2010
Resignado
- Por que você me ama?
- Porque você me ama.
- Porque você me ama.
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Conto
sexta-feira, 2 de julho de 2010
Somos os melhores, claro
Ih, foi gol. Mas como? Não era para ser assim. Eu sonhei que nós ganhávamos. Era um sinal. Tenho certeza. Bastávamos entrar em campo. Pronto. Depois de 90 minutos, estávamos classificados para a próxima fase. A um passo de mais um campeonato mundial. Somo os melhores do mundo. Ninguém duvida disso. Não precisamos nem entrar em campo. A amarelinha ganha de todos a priori. Cresci ouvindo essa história. Então, há algo errado nesse jogo. Como esses laranjinhas ousam virar a partida? Ah, já sei: li em algum livro de roteiro que o herói sempre tem que travar uma luta no fim antes de conquistar o seu objetivo. Embora pareça que ele vá falhar, ele consegue. Sempre. É isso. É só deixarmos a bola rolar mais um pouco. Vamos ganhar. Tem que ser assim. Fomos escolhidos por Deus para sermos os melhores no futebol. Qualquer resultado diferente da vitória é uma mera escorregadela. Coisa que o destino faz para dar uma temperada na vida. Mas sabemos que, no fim, tudo há de ser como sempre foi. Somos arte. Futebol arte. Mesmo jogando no contra-ataque. Mortais. O mundo tem mais medo da gente do que do urânio enriquecido iraniano. São cinco títulos. Só não são mais por pequenas distrações. Bobeiras que nem valem a pena nos atermos. Opa, quase outro gol. Não entrou. E nem vai mais entrar. Se tiver que passar alguma bola por baixo das traves, obviamente será a nossa. Nunca antes na história desse país aconteceu algo diferente. os jovens estão nervosos. Ah, esses jovens... Sempre precipitados. Nada como a sabedoria que vem com a experiência. Faltam dez minutos. Quase que os laranjinhas fazem mais um. Não vai acontecer. Nosso capitão, zagueiro de respeito, está driblando no campo ofensivo. Vai resolver. É o destino dele. As estrelas não brilham. Somos democráticos. Qual outro país elevaria seus coadjuvantes ao protagonismo? É a nossa meta. O professor pediu. Estamos fechados com ele. Fechados nele. Fechados. Mas nem tanto. O ponta direita deles entortou mais um dos nossos. Aprenderam com a gente. Ensinamos ao mundo a fazer bonito com a bola nos pés. No futebol, é antes e depois da gente. Como nos velhos tempos. O juiz apitou. Falta? Impedimento? Como, acabou o jogo? Ainda não empatamos. Precisamos de mais alguns minutos para igualarmos o placar. Acho até que valeria a pena esperar mais um pouco para virarmos. É o nosso destino. Todos sabemos. Somos os melhores. Talvez, se combinarmos direito com as outras seleções e usarmos umas travas mais baixas na chuteira, o destino não pregue mais uma peça na gente em 2014.
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Crônica
terça-feira, 22 de junho de 2010
Dunga, o técnico zangado
No Facebook, o amigo Francisco Medeiros, o Gaúcho, pediu um post neste humilde blogue sobre a confusão que o conterrâneo dele Dunga, técnico da seleção brasileira, tem se envolvido com a mídia - com o perdão da expressão, caros leitores - nas últimas décadas e que culmina no recente episódio com o jornalista Alex Escobar, na coletiva de imprensa ao fim do jogo contra a Costa do Marfim. Não tenho muito o que acrescentar ao que já foi dito e escrito por aí, mas, e quem me conhece sabe, não vou me abster de dar a minha opinião.
Temos um cenário em que, de um lado, a mídia (a expressão é ruim porque põe todos os profissionais e empresas de comunicação no mesmo saco, quando, sabemos, há bons e maus jornalistas e empresas) informa, opina e faz críticas à seleção; do outro, temos um técnico que responde essas críticas com palavrões, grosserias e com tentativas de intimidação da atuação profissional jornalística, seja com o dedo em riste contra jornalistas seja em ameaças subentendidas em perguntas retóricas.
Com estes dois parágrafos iniciais, pretendo ser didático para a exposição do meu raciocínio, já apresentando alguns pontos essenciais, no meu modo de ver, para o entendimento da questão.
A raiva que Dunga demonstra hoje vem desde o fracasso do Brasil na Copa de 1990, quando ele foi eleito pela mídia o jogador-símbolo: a "Era Dunga", um estigma duro de se carregar por qualquer jogador de futebol - Zico o fez com a mesma classe que tinha em campo. Em 1994, o Brasil levou o tetracampeonato com um futebol burocrático, mas extremamente eficiente. Uma zaga sólida, um meio-campo que marcava em cima, valorizava a posse de bola e só dava passes verticais quando eliminava o risco de erro em 99%, além, é claro, de uma dupla de atacantes que se completavam como poucas: Bebeto e Romário. Com o título, Dunga, o capitão, ergueu a taça quase à semelhança de Carlos Alberto, Bellini e Mauro. O quase fica por conta de, na hora de extravasar a alegria, o raivoso Dunga preferiu xingar seus inimigos da imprensa. Em vez de propalar sua felicidade, apresentou seu ódio contido. Nestes dois momentos historico-futebolísticos residem a forma como Dunga se relaciona com a imprensa. O ódio contido e a raiva exposta são duas faces da mesma moeda.
Vinte anos depois da "Era Dunga", o volante-treinador continua à caça de sua detratora: a mídia. O que ele não entende é que os profissionais, muitas vezes, são outros, e que o contexto, então, nada tem a ver com o de outrora. De lá para cá, Dunga já foi elogiado pela imprensa como um volante de ótima marcação, bons passes e de elogiável espírito de liderança. Na seleção, saiu da desconfiança óbvia pela inexperiência no cargo (a mesma que ele usou para justificar a não-convocação de Ganso e Neymar) para as críticas positivas diante de resultados inquestionáveis. Era quase um consenso entre os jornalistas esportivos. Mas isso Dunga, em sua ânsia constante pelo embate, não lembra.
A bem da verdade, as críticas da mídia só se voltaram contra ele após a convocação. E nem foi em relação ao time titular, mas à escolha dos reservas. Porque desde a vitória brasileira na Copa das Confederações, quase um ano antes, surgiram opções para dar criatividade ao elenco, até então pouco contestado pela óbvia falta de jogadores mais habilidosos em atividade. Mas, quase que de uma hora para outra, Ronaldinho Gaúcho, com duas Copas na bagagem e renome internacional, voltou a jogar bem e foi o principal jogador da temporada no Milan. Além dele, tínhamos os jovens Ganso e Neymar, do Santos, encantando o Brasil inteiro. As ausências fizeram, é claro, a imprensa questionar convocações como a de Kléberson, Grafite e Júlio Baptista, por exemplo.
Agora, se Dunga só consegue lidar com as críticas inerentes ao cargo que assumiu de forma belicista e mal educada, ainda precisa de muita terapia freudiana pela frente e de algumas aulas particulares sobre o papel da imprensa em uma democracia, palavrinha esta sempre posta em xeque pelo treinador com interpelações agressivas a jornalistas, de forma a tentar coibir o trabalho de informação, opinião e crítica que tem sido feito.
P.S. - Leiam o ótimo texto do Jornalista Aydano André Motta sobre o assunto. Impecável.
Temos um cenário em que, de um lado, a mídia (a expressão é ruim porque põe todos os profissionais e empresas de comunicação no mesmo saco, quando, sabemos, há bons e maus jornalistas e empresas) informa, opina e faz críticas à seleção; do outro, temos um técnico que responde essas críticas com palavrões, grosserias e com tentativas de intimidação da atuação profissional jornalística, seja com o dedo em riste contra jornalistas seja em ameaças subentendidas em perguntas retóricas.
Com estes dois parágrafos iniciais, pretendo ser didático para a exposição do meu raciocínio, já apresentando alguns pontos essenciais, no meu modo de ver, para o entendimento da questão.
A raiva que Dunga demonstra hoje vem desde o fracasso do Brasil na Copa de 1990, quando ele foi eleito pela mídia o jogador-símbolo: a "Era Dunga", um estigma duro de se carregar por qualquer jogador de futebol - Zico o fez com a mesma classe que tinha em campo. Em 1994, o Brasil levou o tetracampeonato com um futebol burocrático, mas extremamente eficiente. Uma zaga sólida, um meio-campo que marcava em cima, valorizava a posse de bola e só dava passes verticais quando eliminava o risco de erro em 99%, além, é claro, de uma dupla de atacantes que se completavam como poucas: Bebeto e Romário. Com o título, Dunga, o capitão, ergueu a taça quase à semelhança de Carlos Alberto, Bellini e Mauro. O quase fica por conta de, na hora de extravasar a alegria, o raivoso Dunga preferiu xingar seus inimigos da imprensa. Em vez de propalar sua felicidade, apresentou seu ódio contido. Nestes dois momentos historico-futebolísticos residem a forma como Dunga se relaciona com a imprensa. O ódio contido e a raiva exposta são duas faces da mesma moeda.
Vinte anos depois da "Era Dunga", o volante-treinador continua à caça de sua detratora: a mídia. O que ele não entende é que os profissionais, muitas vezes, são outros, e que o contexto, então, nada tem a ver com o de outrora. De lá para cá, Dunga já foi elogiado pela imprensa como um volante de ótima marcação, bons passes e de elogiável espírito de liderança. Na seleção, saiu da desconfiança óbvia pela inexperiência no cargo (a mesma que ele usou para justificar a não-convocação de Ganso e Neymar) para as críticas positivas diante de resultados inquestionáveis. Era quase um consenso entre os jornalistas esportivos. Mas isso Dunga, em sua ânsia constante pelo embate, não lembra.
A bem da verdade, as críticas da mídia só se voltaram contra ele após a convocação. E nem foi em relação ao time titular, mas à escolha dos reservas. Porque desde a vitória brasileira na Copa das Confederações, quase um ano antes, surgiram opções para dar criatividade ao elenco, até então pouco contestado pela óbvia falta de jogadores mais habilidosos em atividade. Mas, quase que de uma hora para outra, Ronaldinho Gaúcho, com duas Copas na bagagem e renome internacional, voltou a jogar bem e foi o principal jogador da temporada no Milan. Além dele, tínhamos os jovens Ganso e Neymar, do Santos, encantando o Brasil inteiro. As ausências fizeram, é claro, a imprensa questionar convocações como a de Kléberson, Grafite e Júlio Baptista, por exemplo.
Agora, se Dunga só consegue lidar com as críticas inerentes ao cargo que assumiu de forma belicista e mal educada, ainda precisa de muita terapia freudiana pela frente e de algumas aulas particulares sobre o papel da imprensa em uma democracia, palavrinha esta sempre posta em xeque pelo treinador com interpelações agressivas a jornalistas, de forma a tentar coibir o trabalho de informação, opinião e crítica que tem sido feito.
P.S. - Leiam o ótimo texto do Jornalista Aydano André Motta sobre o assunto. Impecável.
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Crônica; Artigo
quarta-feira, 9 de junho de 2010
Mais inteligente, Fernandinho virou Beira-Mar
Outro dia, em uma mesa de bar, veio à tona a série de reportagens que o jornal O Globo tem feito sobre o Fernandinho Beira-Mar. As reportagens têm trazido aos leitores colegas de escola do traficante, no intuito de mostrar que cada uma daquelas pessoas tomou um rumo diferente na vida - nenhuma, com exceção do mais famoso, pegou o caminho que desaguava no crime.
Se por um lado as matérias buscam fugir do determinismo social como explicação da opção pelo crime, por outro, de forma sutil, está quase defendendo a escolha de Beira-Mar pelo tráfico de drogas e assassinatos por um viés de determinação natural - biológico ou divino. Dessa forma, Fernandinho Beira-Mar, mesmo com todas as oportunidades do mundo, não teria como fugir de seu destino e de sua má índole. Será?
Não creio que nenhuma explicação determinista valha a pena ser levada ao pé da letra, já que é reducionista em sua essência. Mas, dentre as opções maniqueístas que apresentei, sem dúvida alguma prefiro a primeira, a que dá conta dos aspectos sociais e culturais, do que a que remete a causas naturais. E prefiro porque é um explicação que nos dá muito mais oportunidades de mudar. Aceitando-se que Beira-Mar é produto de suas características como indivíduo em um meio em que está inserido, e que esse meio, assim como ele, também não é natural ou divino, mas social e culturalmente construído pela sociedade como um todo, tomamos a responsabilidade pelas transformações sociais para as nossas mãos, em vez de deixar ao acaso natural ou divino. Essa escolha dá trabalho, porque obriga até aqueles que possuem meios de manter o problema a uma distância minimamente segura a fazer algo - além de blindar carros e botar grades em torno dos prédios.
Já que assumi claramente a minha forma de pensar e, portanto, não posso ser acusado de enganar ninguém, muito menos de manipular informação, ser tendencioso ou parcial, continuo o meu raciocínio. Por que o Fernando se tornou Beira-Mar? Em uma frase um tanto quanto provocativa, mas sintomática, respondo: porque ele é mais inteligente do que os outros alunos de escola pública que frequentaram a mesma sala de aula do que ele. Sim, porque, como todos sabemos, ele foi a pessoa mais bem-sucedida no que se propôs a fazer, dentre todos os colegas, talvez com raras exceções, como as dos dois que se tornaram professores universitários.
Não quero defender o tráfico, nem os assassinatos, muito menos a contravenção. A escolha de Fernandinho Beira-Mar se mostrou acertada para atingir o objetivo dele de ter dinheiro, poder e reconhecimento. Levando-se em conta a situação em que ele vivia e as possibilidades que ele tinha, o delito se mostrou o meio com maior probabilidade de sucesso, embora extremamente arriscado. Quem investe na Bolsa sabe que para ter altos ganhos, é necessário assumir grandes riscos, que muitas vezes podem levar o investidor à falência.
Em um processo seletivo de uma multinacional, as chances de Beira-Mar passar, em uma competição com seus colegas de classe, seriam muito maiores. E digo para cargos executivos, e não subalternos. Ele, imbuído da ética capitalista e de autodidatismo, projetou cenários futuros e, assim, traçou estratégias para conquistar seus objetivos. Mas isso só foi possível pelo seu caráter empreendedor, sua ambição, sua competitividade, sua ótima análise de risco, seu espírito de liderança, sua visão de RH, sua consciência financeira, seu conhecimento de mercado, preço, produto, praça e mais qualquer P que você queira.
Aceite, leitor, que a diferença entre Beira-Mar e o executivo de uma multinacional é apenas o negócio em que ele está: um legalizado, outro não (embora isso em breve possa mudar e, quem sabe, Beira-Mar não se mostre um capitalista contemporâneo e, com uma reengenharia, se adapte rapidamente para manter a liderança neste mercado? Receio que ele será excluído novamente). Ele sabia que não havia a menor possibilidade de ter um carrão e sair com mulheres bonitas através de um alto cargo em uma empresa. Ele não teve e não teria estudo para isso (o que, se não é biológico, pode ter sido divino, como um castigo de Deus).
Mas, ainda assim, ele queria. E sabia como conseguir. Podia não ser legal, mas também não parecia nada legal uns ter e ele não. Sim, porque o pensamento dele foi individualista, não tem nada de coletivo. Assim como é o do cara da grande empresa. E se nenhum dos dois é muito afeito a pagar os impostos, não vou me espantar do dia em que Fernandinho Beira-Mar se tornar oficialmente Fernando Seaside, como um certo jornal estrangeiro um dia escreveu.
Se por um lado as matérias buscam fugir do determinismo social como explicação da opção pelo crime, por outro, de forma sutil, está quase defendendo a escolha de Beira-Mar pelo tráfico de drogas e assassinatos por um viés de determinação natural - biológico ou divino. Dessa forma, Fernandinho Beira-Mar, mesmo com todas as oportunidades do mundo, não teria como fugir de seu destino e de sua má índole. Será?
Não creio que nenhuma explicação determinista valha a pena ser levada ao pé da letra, já que é reducionista em sua essência. Mas, dentre as opções maniqueístas que apresentei, sem dúvida alguma prefiro a primeira, a que dá conta dos aspectos sociais e culturais, do que a que remete a causas naturais. E prefiro porque é um explicação que nos dá muito mais oportunidades de mudar. Aceitando-se que Beira-Mar é produto de suas características como indivíduo em um meio em que está inserido, e que esse meio, assim como ele, também não é natural ou divino, mas social e culturalmente construído pela sociedade como um todo, tomamos a responsabilidade pelas transformações sociais para as nossas mãos, em vez de deixar ao acaso natural ou divino. Essa escolha dá trabalho, porque obriga até aqueles que possuem meios de manter o problema a uma distância minimamente segura a fazer algo - além de blindar carros e botar grades em torno dos prédios.
Já que assumi claramente a minha forma de pensar e, portanto, não posso ser acusado de enganar ninguém, muito menos de manipular informação, ser tendencioso ou parcial, continuo o meu raciocínio. Por que o Fernando se tornou Beira-Mar? Em uma frase um tanto quanto provocativa, mas sintomática, respondo: porque ele é mais inteligente do que os outros alunos de escola pública que frequentaram a mesma sala de aula do que ele. Sim, porque, como todos sabemos, ele foi a pessoa mais bem-sucedida no que se propôs a fazer, dentre todos os colegas, talvez com raras exceções, como as dos dois que se tornaram professores universitários.
Não quero defender o tráfico, nem os assassinatos, muito menos a contravenção. A escolha de Fernandinho Beira-Mar se mostrou acertada para atingir o objetivo dele de ter dinheiro, poder e reconhecimento. Levando-se em conta a situação em que ele vivia e as possibilidades que ele tinha, o delito se mostrou o meio com maior probabilidade de sucesso, embora extremamente arriscado. Quem investe na Bolsa sabe que para ter altos ganhos, é necessário assumir grandes riscos, que muitas vezes podem levar o investidor à falência.
Em um processo seletivo de uma multinacional, as chances de Beira-Mar passar, em uma competição com seus colegas de classe, seriam muito maiores. E digo para cargos executivos, e não subalternos. Ele, imbuído da ética capitalista e de autodidatismo, projetou cenários futuros e, assim, traçou estratégias para conquistar seus objetivos. Mas isso só foi possível pelo seu caráter empreendedor, sua ambição, sua competitividade, sua ótima análise de risco, seu espírito de liderança, sua visão de RH, sua consciência financeira, seu conhecimento de mercado, preço, produto, praça e mais qualquer P que você queira.
Aceite, leitor, que a diferença entre Beira-Mar e o executivo de uma multinacional é apenas o negócio em que ele está: um legalizado, outro não (embora isso em breve possa mudar e, quem sabe, Beira-Mar não se mostre um capitalista contemporâneo e, com uma reengenharia, se adapte rapidamente para manter a liderança neste mercado? Receio que ele será excluído novamente). Ele sabia que não havia a menor possibilidade de ter um carrão e sair com mulheres bonitas através de um alto cargo em uma empresa. Ele não teve e não teria estudo para isso (o que, se não é biológico, pode ter sido divino, como um castigo de Deus).
Mas, ainda assim, ele queria. E sabia como conseguir. Podia não ser legal, mas também não parecia nada legal uns ter e ele não. Sim, porque o pensamento dele foi individualista, não tem nada de coletivo. Assim como é o do cara da grande empresa. E se nenhum dos dois é muito afeito a pagar os impostos, não vou me espantar do dia em que Fernandinho Beira-Mar se tornar oficialmente Fernando Seaside, como um certo jornal estrangeiro um dia escreveu.
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Crônica
sexta-feira, 14 de maio de 2010
Rock in Rio passa por crise de público
Ontem, saí do meu enclausuramento dos últimos dois anos por conta de um mestrado sobre cultura/música pop para, enfim, retornar aos shows de rock, coisa que costumava fazer com certa frequência em outros tempos e que, certamente, alguma influência teve na escolha do assunto a ser teorizado. Sem mais delongas sobre o mestrado, quero falar sobre o que observei neste segundo dia da primeira edição do Festival Fora do Eixo no Rio de Janeiro.
Há tempos reclama-se do público de rock da cidade. Bandas, produtores, empresários da noite, todos sabem que os palcos de rock independente no Rio se ressentem de uma plateia à altura. Ontem, infelizmente, não foi diferente. Uma casa que tem capacidade para 700 pessoas, mas que fica agradável com 400, não devia contabilizar mais de 200. E se perguntarmos quantos destes 200 pagaram ingresso, certamente vamos chegar à conclusão que apenas uma minoria tira dinheiro do bolso para assistir às bandas em ação.
A situação nada tem a ver com a qualidade dos grupos. Todos os cinco que se apresentaram (Do Amor, Porcas Borboletas, Brasov, Tereza e Nevilton) são boas bandas - sendo que algumas destas são realmente ótimas experiências sonoras.
Então, qual é o problema? Longe de mim querer dar a resposta. Tenho apenas suposições nada científicas. Nestes dois anos de reclusão acadêmica, algo mudou - e não estou falando do meu modo de pensar e enxergar as manifestações sociais. Ontem, tirando meia dúzia de conhecidos, todos me eram estranhos. Eu nem ao menos tinha visto antes, de relance que fosse, aqueles rostos.
Essa constatação me leva a crer que o público que costumava assistir aos shows na época em que eu era mais assíduo, bem como as bandas, envelheceu junto comigo. Isso quer dizer que, com a idade na casa dos 30, nos tornamos, talvez, mais conservadores, no sentido de não nos interessarmos por conhecer bandas novas, fisicamente mais cansados - é verdade, não aguento mais beber chope até as 3h e acordar cedo no dia seguinte para trabalhar - e, também, mais exigentes quanto a conforto, segurança etc. São algumas das razões, creio, para o pessoal das antigas não ir aos shows.
Ah, mas é legal essa renovação de público, você pode falar. Renovação de público não é apenas legal, é extremamente necessária. O problema não era haver um público novo, mas esse público novo ser muito inferior, em número, do que o de outrora, o que nos leva à tal diminuição da plateia.
Não estou querendo dizer que o rock não atrai a garotada de hoje. Do contrário, bandas como Restart, Replace, Glória e Cine não estariam lotando os mais variados galpões por aí. Mas quem vai ao show das bandas citadas é uma galera que se identifica com eles, seja pela faixa etária, seja pelas letras, seja pelo figurino, seja por tudo isso junto. O público dos "coloridos", para usar o termo da moda, tem a mesma idade do que os integrantes dos grupos, pensa e vive de forma semelhante.
Então, o que vemos na esvaziada cena de rock independente do Rio é uma crise na relação "fã-ídolo". Mas talvez não seja uma crise de identificação, apenas um desajuste de anseios entre as bandas independentes com referências mais adultas e o seu público, igualmente adulto, mas que tem trocado as noites de rock e bebedeira por noites bem-dormidas, mais do que necessárias para suportar o dia de trabalho porvir.
Há tempos reclama-se do público de rock da cidade. Bandas, produtores, empresários da noite, todos sabem que os palcos de rock independente no Rio se ressentem de uma plateia à altura. Ontem, infelizmente, não foi diferente. Uma casa que tem capacidade para 700 pessoas, mas que fica agradável com 400, não devia contabilizar mais de 200. E se perguntarmos quantos destes 200 pagaram ingresso, certamente vamos chegar à conclusão que apenas uma minoria tira dinheiro do bolso para assistir às bandas em ação.
A situação nada tem a ver com a qualidade dos grupos. Todos os cinco que se apresentaram (Do Amor, Porcas Borboletas, Brasov, Tereza e Nevilton) são boas bandas - sendo que algumas destas são realmente ótimas experiências sonoras.
Então, qual é o problema? Longe de mim querer dar a resposta. Tenho apenas suposições nada científicas. Nestes dois anos de reclusão acadêmica, algo mudou - e não estou falando do meu modo de pensar e enxergar as manifestações sociais. Ontem, tirando meia dúzia de conhecidos, todos me eram estranhos. Eu nem ao menos tinha visto antes, de relance que fosse, aqueles rostos.
Essa constatação me leva a crer que o público que costumava assistir aos shows na época em que eu era mais assíduo, bem como as bandas, envelheceu junto comigo. Isso quer dizer que, com a idade na casa dos 30, nos tornamos, talvez, mais conservadores, no sentido de não nos interessarmos por conhecer bandas novas, fisicamente mais cansados - é verdade, não aguento mais beber chope até as 3h e acordar cedo no dia seguinte para trabalhar - e, também, mais exigentes quanto a conforto, segurança etc. São algumas das razões, creio, para o pessoal das antigas não ir aos shows.
Ah, mas é legal essa renovação de público, você pode falar. Renovação de público não é apenas legal, é extremamente necessária. O problema não era haver um público novo, mas esse público novo ser muito inferior, em número, do que o de outrora, o que nos leva à tal diminuição da plateia.
Não estou querendo dizer que o rock não atrai a garotada de hoje. Do contrário, bandas como Restart, Replace, Glória e Cine não estariam lotando os mais variados galpões por aí. Mas quem vai ao show das bandas citadas é uma galera que se identifica com eles, seja pela faixa etária, seja pelas letras, seja pelo figurino, seja por tudo isso junto. O público dos "coloridos", para usar o termo da moda, tem a mesma idade do que os integrantes dos grupos, pensa e vive de forma semelhante.
Então, o que vemos na esvaziada cena de rock independente do Rio é uma crise na relação "fã-ídolo". Mas talvez não seja uma crise de identificação, apenas um desajuste de anseios entre as bandas independentes com referências mais adultas e o seu público, igualmente adulto, mas que tem trocado as noites de rock e bebedeira por noites bem-dormidas, mais do que necessárias para suportar o dia de trabalho porvir.
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quarta-feira, 5 de maio de 2010
Dicionário etílico
A ressaca às vezes vem em sopa de letrinhas. Tento juntar as palavras desconexas para fazerem sentido. Em vão. As pernas doem da corrida do dia anterior. Sou da geração saúde. Dou descarga. Vodka com Red Bull, nunca mais!
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