quinta-feira, 21 de janeiro de 2010

Monstros: o melhor remédio contra a solidão

Não sou daqueles que vai ao cinema para ver qualquer filme. Gosto de entrar na sala escura, fria, com poltronas confortáveis e uma tela enorme para ter uma experiência que dure além das quase duas horas da sessão. Não estou dizendo que essa é a única maneira que valha a pena, é apenas o que me motiva. Ontem, felizmente, saí da sala de projeção com as minhas expectativas muito mais do que atingidas, embora tivesse pouca informação sobre “Onde vivem os monstros” (“Where the wild things are”). O meu principal motivo para ver este filme estava nos créditos de direção: Spike Jonze, responsável por “Quero ser John Malkovich” e “Adaptação”.

E Jonze, mais uma vez, não decepcionou. Fez uma adaptação do livro infanto-juvenil "Os Sete Monstrinhos", de Maurice Sendak, delicada e sensível. Mas não espere um filme para crianças. Não é. É um filme sobre solidão. Uma solidão existente no mundo/cabeça do menino Max, um garoto que tenta aplacar este sentimento por meio de sua criatividade. É ela que preenche os momentos em que sua mãe e/ou sua irmã não lhe dão a atenção desejada, além de outros artifícios típicos de um menino de sua idade, como pitadas de agressividade e hiper-atividade. Nada que extrapole.

Enciumado, Max tem um desses rompantes de agressão e morde a mãe. De castigo, sua imaginação o leva para um mundo habitado por monstros gigantes. E onde Max é rei. Neste mundo, dormir embolado (afeto) e fazer o quer quiser são as regras. Leis estas que devem manter a infelicidade e a solidão longes.

O mundo perfeito não existe, e logo Max descobre. Mesmo com a melhor das intenções, Max não consegue administrar os diferentes anseios e vontades dos habitantes/monstros. A mesma boa intenção que certamente sua mãe tem em relação a ele. E o menino percebe.

“Onde vivem os monstros” reúne em um filme só tristeza, felicidade, raiva, beleza... Talvez seja isso que nos faça ter um grau de identificação com o menino. Mas pode ser também a dificuldade em lidar com as frustrações e com a impossibilidade de fazermos tudo aquilo que gostamos em um mundo habitado por personalidades distintas, a tal sociedade.


quarta-feira, 6 de janeiro de 2010

Autopromoção

E a minha coluna quinzenal no Prosa em Verso foi atualizada. O texto, Enlatado, está sendo muito bem recebido. Dá uma passada por lá e deixe suas impressões. Clique aqui para ler!

segunda-feira, 4 de janeiro de 2010

Dança da chuva

Um dos primeiro atos do prefeito do Rio de Janeiro, Eduardo Paes, foi acabar com o contrato que seu antecessor, Cesar Maia, tinha com uma empresa/entidade indígena cujo objetivo era afastar as chuvas da cidade em ocasiões especiais, como o réveillon. O fim do contrato não durou muito e logo EP refez o acordo com o(a) Cacique Cobra Coral. Afinal, ele não queria ser conhecido como o prefeito que deixou a cidade sob águas justamente na festa de Ano Novo. Imagina a queima de fogos na Praia de Copacabana, que abriga dois milhões de pessoas, entre turistas e moradores da cidade, ser um fiasco por causa de materialismos bobos?

Mais uma vez, os serviços do(a) cacique Cobra Coral se mostraram eficazes, e a passagem de ano transcorreu sem chuva e com muita alegria. Não podemos, no entanto, deixar de notar que se Copacabana passou a seco, outras regiões do estado sofreram com um terrível dilúvio. Foi o caso da Baixada Fluminense e de Angra dos Reis, como temos acompanhado no noticiário.

Diante deste quadro, temos que questionar algumas atitudes dos nossos governantes: se o(a) cacique Cobra Coral tem um trabalho tão bem feito e importante, vide sua perpetuação em governos diferentes, por que o governador Sérgio Cabral também não fez um contrato com a entidade indígena? Vão precisar morrer mais quantas pessoas para que isso seja feito?

No entanto, não devemos ser ingênuos quanto à atuação do(a) Cacique Cobra Coral. Será que em vez de exterminar com as chuvas na capital, ele precisava, também, desviar a chuva para outras áreas – e de forma tão violenta? Será que as tempestades na Baixada e em Angra não fazem parte da estratégia de assinatura de novos contratos, à semelhança do modus operandi de grupos de segurança, que muitas vezes praticam atos violentos para justificar sua contratação?

O fato é que algo precisa ser feito. Não é possível pessoas continuarem morrendo por causa das chuvas de verão. O problema é que tenho a sensação de que nem o(a) Cacique Cobra Coral será contratado para outros municípios nem qualquer providência será tomada. Não é pessimismo, mas é que a Baixada fica tão longe de Copacabana...

terça-feira, 22 de dezembro de 2009

Autopromoção

Ando devagar aqui. Mas o escrevinhando no P&V continua batendo ponto quinzenalmente. O texto novo chama-se Eu, robô, eu. Divirtam-se!

terça-feira, 8 de dezembro de 2009

Autopromoção

Hoje estreou a minha coluna no Prosa em Verso, também intitulada Escrevinhando. O primeiro texto chama-se Salão Translúcido. Confiram!

segunda-feira, 7 de dezembro de 2009

Cumplicidade velada

Já faz alguns textos que usei a expressão "cumplicidade velada". Na ocasião, falava de uma característica que observei entre os que frenquentam bares e botecos. Era algo que estava no ar ou nos corações. Não era dito, mas estava lá. E todos pareciam comungar desta ideia. A cumplicidade entre habitués dos botequins não precisa de externalizada oralmente. Ela apenas existe. E isso basta.

O preâmbulo foi para falar que, novamente, a cumplicidade velada apareceu de tal forma à minha frente, com tamanha clareza, que quase deixou o seu status de velada. Diria até que ela teve seu momento velada e, aos poucos, passou à escancarada.

Estou falando da aura pré-jogo do Flamengo ontem. Os cidadãos do Rio, ao envergar sua segunda pele, a rubro-negra, estavam dizendo a todos, sem ao menos precisar soltar uma nota pela boca, que estavam felizes e ansiosos pelo hexa iminente.

Ficava evidente nos sorrisos trocados entre flamenguistas desconhecidos. Uma simpatia que tinha motivo único. E que fez, por algumas horas, grande parte dos cariocas se sentirem parte de uma mesma coisa, com apenas um objetivo. O hexa estava perto. E todos sabíamos!

* * *

Hoje, a cumplicidade, velada ou não, cruzou novamente o meu caminho. Vi uma turma de jovens colegiais, de 12 ou 13 anos, andando na rua. Pareciam ir para uma sessão de cinema com a escola, aqueles passeios que todos gostávamos. O bacana foi ver, entre eles, uma felicidade transbordante. O motivo estava nas camisetas: do Flamengo, do Botafogo, do Fluminense.

segunda-feira, 9 de novembro de 2009

O conservadorismo dos jovens

Esse caso da jovem agredida da Uniban porque estava usando roupas curtas e, portanto, segundo a massa de agressores, indecentes e não-condizentes com o ambiente de uma universidade me fez voltar 14 anos no tempo, quando eu ainda cursava o primeiro ano do segundo grau no Colégio Princesa Isabel, em Botafogo, Rio de Janeiro.

À época, começou a correr pelas bocas e ouvidos dos mais de mil alunos do segundo grau que haveria um casal de meninas homossexual - bem, vocês podem imaginar que estou amenizando o linguajar utilizado pelos adolescentes que ali estudavam, não? O zunzunzum foi aumentando durante uma ou duas semanas, acho. Era comentário geral no colégio. O suposto relacionamento das meninas causava um rebuliço nas salas e corredores.

Lembro, então, que um dia, durante o recreio, eu estava em sala de aula e ouvi uma barulheira vinda do pátio. Era um estrondo formado por urros, grecejos, gritos. De longe, parecia com aquelas uníssonas incitações comuns aos jovens quando dois ou mais adolescentes se põem a brigar. Eu, assim como todos os outros estudantes que não estavam no pátio, desci rapidamente para ver o que causava tanto alvoroço. Quando, enfim, consegui chegar, não detectei nada que pudesse justificar tamanha reação coletiva espontânea. Ao perguntar, tive a resposta:

- As lésbicas se beijaram!

Embora todos que eu tenha arguido afirmassem não terem visto, não havia uma só pessoa que duvidasse. Rapidamente, elas foram retiradas pelo inspetor, que as levou para a diretoria. Não dá para saber se foi um ato de repressão ou de garantia da segurança das meninas, já que os estudantes em peso foram atrás - das garotas e do inspetor - aos brados:

- U, u, u, isso é falta de peru!

Perdeu-se ao menos um tempo de aula com manifestações de reprovação, condenação, agressão psicológica e coisas do gênereo, na porta da direção. Após o suposto beijo - insisto no suposto porque não vi, não conheço quem viu e tenho amigos, de fora do Princesa Isabel, em comum às meninas que garantem não ter havido o ósculo - elas se transferiram da escola. Cada uma, para uma instituição de ensino diferente. Sumiram sem explicação formal. Para se ter uma ideia, eu, até hoje, não sei quem eram as garotas. Não havia mais clima algum para que permanecessem. O fuzuê foi tão grande que chegou ao conhecimento de alunos vários colégios das classes média e alta carioca.

Se nas aulas de História a Princesa Isabel é lembrada pela abolição da escravidão; o colégio ao qual dava nome, em meados dos anos 90, pode ser lembrado pelos atos arbitrários, preconceituosos e agressivos, seja por meio de seus alunos, seja por, no mínimo, omissão de sua diretoria.