Não sou daqueles que vai ao cinema para ver qualquer filme. Gosto de entrar na sala escura, fria, com poltronas confortáveis e uma tela enorme para ter uma experiência que dure além das quase duas horas da sessão. Não estou dizendo que essa é a única maneira que valha a pena, é apenas o que me motiva. Ontem, felizmente, saí da sala de projeção com as minhas expectativas muito mais do que atingidas, embora tivesse pouca informação sobre “Onde vivem os monstros” (“Where the wild things are”). O meu principal motivo para ver este filme estava nos créditos de direção: Spike Jonze, responsável por “Quero ser John Malkovich” e “Adaptação”.
E Jonze, mais uma vez, não decepcionou. Fez uma adaptação do livro infanto-juvenil "Os Sete Monstrinhos", de Maurice Sendak, delicada e sensível. Mas não espere um filme para crianças. Não é. É um filme sobre solidão. Uma solidão existente no mundo/cabeça do menino Max, um garoto que tenta aplacar este sentimento por meio de sua criatividade. É ela que preenche os momentos em que sua mãe e/ou sua irmã não lhe dão a atenção desejada, além de outros artifícios típicos de um menino de sua idade, como pitadas de agressividade e hiper-atividade. Nada que extrapole.
Enciumado, Max tem um desses rompantes de agressão e morde a mãe. De castigo, sua imaginação o leva para um mundo habitado por monstros gigantes. E onde Max é rei. Neste mundo, dormir embolado (afeto) e fazer o quer quiser são as regras. Leis estas que devem manter a infelicidade e a solidão longes.
O mundo perfeito não existe, e logo Max descobre. Mesmo com a melhor das intenções, Max não consegue administrar os diferentes anseios e vontades dos habitantes/monstros. A mesma boa intenção que certamente sua mãe tem em relação a ele. E o menino percebe.
“Onde vivem os monstros” reúne em um filme só tristeza, felicidade, raiva, beleza... Talvez seja isso que nos faça ter um grau de identificação com o menino. Mas pode ser também a dificuldade em lidar com as frustrações e com a impossibilidade de fazermos tudo aquilo que gostamos em um mundo habitado por personalidades distintas, a tal sociedade.