Esse caso da jovem agredida da Uniban porque estava usando roupas curtas e, portanto, segundo a massa de agressores, indecentes e não-condizentes com o ambiente de uma universidade me fez voltar 14 anos no tempo, quando eu ainda cursava o primeiro ano do segundo grau no Colégio Princesa Isabel, em Botafogo, Rio de Janeiro.
À época, começou a correr pelas bocas e ouvidos dos mais de mil alunos do segundo grau que haveria um casal de meninas homossexual - bem, vocês podem imaginar que estou amenizando o linguajar utilizado pelos adolescentes que ali estudavam, não? O zunzunzum foi aumentando durante uma ou duas semanas, acho. Era comentário geral no colégio. O suposto relacionamento das meninas causava um rebuliço nas salas e corredores.
Lembro, então, que um dia, durante o recreio, eu estava em sala de aula e ouvi uma barulheira vinda do pátio. Era um estrondo formado por urros, grecejos, gritos. De longe, parecia com aquelas uníssonas incitações comuns aos jovens quando dois ou mais adolescentes se põem a brigar. Eu, assim como todos os outros estudantes que não estavam no pátio, desci rapidamente para ver o que causava tanto alvoroço. Quando, enfim, consegui chegar, não detectei nada que pudesse justificar tamanha reação coletiva espontânea. Ao perguntar, tive a resposta:
- As lésbicas se beijaram!
Embora todos que eu tenha arguido afirmassem não terem visto, não havia uma só pessoa que duvidasse. Rapidamente, elas foram retiradas pelo inspetor, que as levou para a diretoria. Não dá para saber se foi um ato de repressão ou de garantia da segurança das meninas, já que os estudantes em peso foram atrás - das garotas e do inspetor - aos brados:
- U, u, u, isso é falta de peru!
Perdeu-se ao menos um tempo de aula com manifestações de reprovação, condenação, agressão psicológica e coisas do gênereo, na porta da direção. Após o suposto beijo - insisto no suposto porque não vi, não conheço quem viu e tenho amigos, de fora do Princesa Isabel, em comum às meninas que garantem não ter havido o ósculo - elas se transferiram da escola. Cada uma, para uma instituição de ensino diferente. Sumiram sem explicação formal. Para se ter uma ideia, eu, até hoje, não sei quem eram as garotas. Não havia mais clima algum para que permanecessem. O fuzuê foi tão grande que chegou ao conhecimento de alunos vários colégios das classes média e alta carioca.
Se nas aulas de História a Princesa Isabel é lembrada pela abolição da escravidão; o colégio ao qual dava nome, em meados dos anos 90, pode ser lembrado pelos atos arbitrários, preconceituosos e agressivos, seja por meio de seus alunos, seja por, no mínimo, omissão de sua diretoria.
segunda-feira, 9 de novembro de 2009
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